“Surfactante” é uma palavra que vem da expressão “surface active agent”, significando “agente de atividade superficial”. Também pode ser chamado de tensoativo. Bem grosso modo, também poderiam ser chamados de detergentes. Não vou comentar aqui sobre como atuam os surfactantes porque já inúmeras fontes sobre isto, quem quiser aprender, basta pesquisar.
Mas resumindo apenas o que interessa e traduzindo em termos práticos, na indústria cosmética os surfactantes são usados principalmente para misturar substâncias que não se misturam naturalmente: como água e óleo.
A maioria dos produtos que usamos, mesmo muitos dos chamados “oil free”, são uma emulsão composta por água e óleo e/ou substâncias de caráter oleoso.
Vejamos um exemplo: Vichy Normaderm Anti-Aging.
Clicar aqui para ler os ingredientes.
Óleo, propriamente dito, não tem mesmo. Mas tem parafina, que é um ingrediente de caráter oleoso e não se mistura naturalmente com água. Para misturar ambos os ingredientes, foi um usado um surfactante: PEG-20 Stearate.
O problema com os surfactantes comumente usados é que eles podem irritar a pele (na verdade, tudo pode) e causar danos relativamente expressivos ao meio ambiente. Os PEGs, por exemplo, são derivados do petróleo. Todos sabem que a extração do petróleo não é “amiga” do meio ambiente. Além disso, os fabricantes dos PEGs devem retirar as impurezas e subprodutos da produção dos mesmos, como a 1,4-dioxina. Embora sejam considerados seguros (Toxicology. 2005 Oct 15;214(1-2):1-38.), já deve ter dado para perceber que não são perfeitos.
Uma nova alternativa: biossurfactantes
Biossurfactantes são surfactantes produzidos por microorganismos, como bactérias ou fungos. Ao contrário dos surfactantes sintéticos, os biossurfactantes são rapidamente biodegradados (MMG 445 Basic Biotechnology (2009) 5:78-), sendo mais “compatíveis” com o meio ambiente, por assim dizer.
Não para por aí: os biossurfactantes também parecem ser mais seguros e menos irritantes para a pele do que os surfactantes sintéticos.
Mais: especula-se que resíduos de certos surfactantes podem envelhecer a pele, entre outros problemas. Com os biossurfactantes, a história é diferente: há até estudos mostrando que certos biossurfacntes podem ter propriedades “anti-idade”, hidratantes e de melhorar a função de barreira da pele (mostro estes estudos mais para o final do post). Isso é excelente, porque, em alguns casos, surfactantes podem ressecar e danificar a função de barreira da pele.
Para quem quiser ler sobre mais vantagens dos biossurfacntes, ler esta revisão feita por pesquisadores da UNICAMP.
Mais uma vez, a indústria cosmética japonesa sai na frente
Biossurfacntes vêm sendo pesquisados há décadas. Mas só agora a indústria cosmética passou a usá-los. Na verdade, a “indústria cosmética” seria muito abrangente. Melhor seria dizer a Kanebo/Kao.
Por que “só agora”? Vários motivos. Um deles é que a produção destes biossurfactantes era cara. Mas graças a uma técnica empregada pela japonesa Kanebo, finalmente foram colocados no mercado alguns cosméticos emulsionados com biossurfactantes. Mais especificamente, o nome do biossurfactante que a Kanebo está usando é mannosylerythritol lipid B (MEL-B).
Como é produzido
Evidentemente, não vem ao caso mostrar os processos aqui. Mas é por meio de biotecnologia, por um processo de fermentação onde certos fungos estão envolvidos.

Crédito da imagem: Current Opinion in Colloid & Interface Science. Volume 14, Issue 5, October 2009, Pages 315–328
Mais vantagens
Como comentei, há estudos mostrando que estes surfactantes podem até ter propriedades “anti-idade” e melhorar a textura da pele (J Oleo Sci. 2012;61(7):407-12.).
Uma observação interessante é que o MEL-B e as ceramidas, lipídios que ajudam a impedir o ressecamento, encontradas na pele são similares. (Biosci Biotechnol Biochem. 2011;75(7):1371-6. Epub 2011 Jul 7.). O processo de obtenção de ceramidas é bastante caro; logo, os biossurfactantes podem oferecer mais uma vantagem, já que eles podem sair mais em conta do que as ceramidas.
O que os pesquisadores estão dizendo…
“Right now, it is difficult to make products solely from natural materials, but the industry can change. These biosurfactants are a combination of fermentation and other technologies that make use of natural materials and I believe that in the future we will be able to make more products in this way.”
Motoi Hayase, pesquisador da Kanebo.
“The advantage of present biosurfactants, such as MEL, is that they not only have high surface activity, but also elevated moisturising activity.
Natural ceramides from plants are widely used as an effective moisturising ingredient in skin care cosmetics but these are very expensive and difficult to handle due to low water solubility
In contrast, MEL can be efficiently produced by a microbial process and shows higher hydrophilicity compared to natural ceramides. In addition, MEL has excellent properties for forming liquid crystals, such as lamellar, which function as a ‘reservoir’ for water and other important cosmetic ingredients.”
Dai Kitamoto, pesquisador da japonesa AIST.
Fonte das citacoes: Cosmetics Business.
Presente
A Kanebo acaba de lançar um hidratante em que foi usado o MEL-B para emulsificar a fórmula. Chama-se Doltier Turning Point Cool Gel.

Crédito da imagem: http://www.kanebo-cosmetics.co.jp/
Custa 6300 Ienes (algo em torno de R$ 160) e acho que pode ser encomendado na Ichibankao.
O que achei legal é que, apesar de ter um marketing voltado a quem tem mais de 40 anos, é em gel. Não sei por que a nossa indústria parece achar que só pessoas jovens gostam de textura em gel, que pessoas a partir dos 40 só querem usar texturas em creme…
Futuro
Acredita-se que estes biossurfactantes ficarão cada vez mais comuns e muitos surfactantes usados hoje serão, então, considerados obsoletos. Vale lembrar que quando a Shiseido produziu ácido hialurônico de origem não animal (foi a primeira marca de cosméticos a fazer isto), ácido hialurônico era raramente encontrado em cosméticos. Hoje é banal.
Excelente para o Brasil
Já que o Brasil vem demonstrando que não esta disposto a realmente investir em ciência e tecnologia, pelo menos vamos produzir matérias primas para quem está, certo?!
Cana de Açúcar pode ser usado para a producao do surfactante MEL-B. (Biosci Biotechnol Biochem. 2011;75(7):1371-6. Epub 2011 Jul 7.).
Considerando que o Brasil é um grande produtor de cana, talvez exportaremos mais ainda. A não ser que os chineses também resolvam plantar cana, como fizeram com o feijão tipicamente consumido no Brasil.
P.s: este post poderia fazer parte do post que fiz sobre “cosméticos fermentados“.
Mais referências e leitura recomendada:
1 – “New versatile compounding technique using biosurfactant enables continuing development of earth- and skin-friendly cosmetics”;
2 – “Biourfactants for cosmetic application: overcoming production challenges”.