ATENÇÃO: esta é uma continuação de outros artigos. Não leiam este artigo antes de ler os anteriores:
Até o momento foram mostrados os ingredientes que têm como alvo direto os melanócitos, células que produzem melanina. Nesta parte, porém, comenta-se sobre os ingredientes que têm como alvo os queratinócitos, principais células da epiderme (os melanócitos seriam alvos indiretos). (Int J Mol Sci. 2010; 11(6): 2566–2575.).
Com o aprofundamento de pesquisas sobre o assunto, em grande parte pela iniciativa privada japonesa (afinal, há um grande interesse comercial nesta área) vem se demonstrando que citocinas e mediadores inflamatórios podem estimular a síntese de melanina e atividade da tirosinase.
Portanto, uma estratégia é prevenir a inflamação causada pelos radiação UV. Para isso, três ingredientes foram aprovados como quasi drugs no Japão. A saber: extrato de camomila (Kao), ácido tranexâmico (Shiseido) e tranexamic acid aetyl ester hydrochloride (Chanel).
Extrato de camomila: extrato camomila vem sendo usado tradicionalmente como um “agente anti-inflamatório” e é o único extrato botânico aprovado como clareador da pele pelo governo japonês. (Int J Mol Sci. 2010; 11(6): 2566–2575.).
Pesquisadores da Kao Corporation demonstraram que, quando expostos aos raios UV, os queratinócitos secretam endotelina 1 (ET-1), um tipo de citocina inflamatória que ativa os melanócitos. (J Biol Chem. 1992 Dec 5;267(34):24675-80.).
Demonstrou-se que o extrato de camomila pode agir como um antagonista do receptor endotelina. Esse antagonismo faz com que, como consequência, a síntese de melanina nos melanócitos seja inibida e a hiperpigmentação pelos raios UV-B seja prevenida in vivo quando o extrato é aplicado imediatamente após exposição aos raios UVB (Pigment Cell Res. 1997 Aug;10(4):218-28.).
Foi uma pesquisa bastante original da Kao, porque até então (1998) todos os ingredientes para clarear a pele e aprovados como quasi-drugs no Japão haviam sido desenvolvidos para inibir a tirosinase. Em contraste, a Kao desenvolveu um ingrediente focando nos queratinócitos que circundam os melanócitos. (Int J Mol Sci. 2010; 11(6): 2566–2575.)
O problema (para a Kao): camomila, por si só, não teria como ser patenteada. É algo de domínio universal, qualquer empresa pode colocar camomila em um cosmético quando bem entender. Logo, Kao criou um extrato “especial” de camomila, chamado “Camomila ET”. O extrato de camomila usado pela Kao passa por um processo onde os componentes não desejados e potenciadores causadores de alergias, como pigmentos e componentes aromáticos, são retirados. Em geral, sobram apenas os componentes da camomila sobre os quais há interesse. Desse modo, a Kao conseguiu patentear este extrato e ainda por cima o consumidor tem a oportunidade de usar algo mais seguro.
Um estudo também mostrou que um creme contendo 0.5% de extrato de camomila foi efetivo para prevenir a hiperpigmentação causada pelos raios UVB. (Skin Research).
Crédito da imagem: http://www.flowers-gallery.com/
Pessoalmente, não esperaria que apenas este extrato fosse clarear alguma mancha que eu tenha. Talvez até a Kao também não, uma vez que este não é o único ingrediente clareador usado pela empresa. Mas esperaria que fosse capaz de evitar o escurecimento da pele provocado pela exposição aos raios solares e, consequentemente, o escurecimento das manchas. Eu acho que algo capaz de prevenir que as manchas escuras piorem já é um grande feito.
Onde encontrar Camomila ET: em quase tudo (ou até tudo, não estou certo) da Kao que promete clarear a pele, como o protetor solar Sofina Perfect UV White Protect SPF 50+ PA+++.
Eu mesmo resenhei uma emulsão hidratante e clareadora da marca para pele sensível e que contém extrato de camomila. Aqui.
O outro ingrediente nesta “categoria” de anti-inflamatórios é o ácido tranexâmico, obtido como quasi-drug para o clareamento da pele pela Shiseido em 2012.
O ácido tranexâmico é tradicionalmente usado em Medicina para controlar hemorragias. Mas recentemente também vem sendo usado no clareamento de manchas hiperpigmentares em virtude do seguinte motivo: bloqueia a conversão do plasminogênio em plasmina. Como a plasmina está envolvida na liberação de certas substâncias (ácido araquidônico, por exemplo) que podem estimular a síntese de melanina pelos melanócitos, acredita-se que o ácido tranexâmico pode, inidiretamente, ajudar a clarear a pele. Para quem tiver curiosidade e quer ler mais detalhes sobre como o ácido tranexâmico funcionaria para esta finalidade, sugiro esta referência (Surgical & Cosmetic Dermatology) e esta (Journal of Health Science). A última foi publicada por dois pesquisadores da Shiseido com grande experiência na área e diversos estudos publicados sobre o assunto.
Ácido tranexâmico pode ser encontrado em diversos cosméticos da Shiseido. Não só nos que prometem clarear a pele, mas também em alguns hidratantes para pele sensível, já que poderia proporcionar uma ação anti-inflamatória. Resenhei um hidratante com ácido tranexâmico aqui.
Infelizmente, um estudo feito com a aplicação tópica contendo 5% de ácido tranexâmico em um lado do rosto e um placebo do outro de voluntários, não demonstrou diferenças estatisticamente significante entre os dois regimes. (J Cosmet Laser Ther. 2012 Jun;14(3):150-4.) Por outro lado, o estudo envolveu um número tão minúsculo de participantes (23), que talvez nem devesse ser levado em consideração. Ainda mais que o ácido tranexâmico raramente costuma ser usado como único ingrediente prometendo clarear manchas em cosméticos. Mas sim em conjunto com outros ingredientes.
Em países como a Coreia do Sul e China, o ácido tranexâmico vem sendo usado na tentativa de clarear hiperpigmentações também na forma oral. Mas não vou discutir isso porque neste caso estaria sendo usado como medicamento (ainda que com finalidade estética), não cosmético. E blog visa discutir apenas cosméticos. De qualquer modo, “por cima”, eu diria que até o momento encontrei poucos estudos sobre o assunto E os poucos estudos costumam ser pequenos e e/ou pouco controlados, com metodologias “fracas”.
O ácido tranexâmico também vem sendo aplicado – inclusive já no Brasil – na “forma injetável” e diretamente nas manchas. Não pesquisei o assunto e não pretendo pesquisar, porque, mais uma vez, sairia da proposta do blog, que é discutir cosméticos de marcas asiáticas. De qualquer forma, vejam o que alguns dermatologistas brasileiros estão dizendo, de acordo com a mídia, sobre o assunto:
‘O ácido é diluído em soro e injetado no sinal para inibir a reação inflamatória da pele em relação ao sol”, conta a dermatologista Denise Steiner (SP).
(…)
Indico 10 sessões, uma por semana, sendo que o resultado aparece a partir da terceira”, conta ela’
Fonte: Corpo a Corpo.
‘“Este tratamento é muito buscado por mulheres dos 25 a 30 anos de idade. Ameniza muito as manchas, mas elas não somem por completo. Depois do tratamento, o resultado vai depender também do paciente. Ele precisa usar sempre um protetor solar”, sugere o dermatologista Jardis Volpe.’
Fonte: GNT/Globo.
Já a Chanel obteve – em 2009 – a aprovação do tranexamic acid aetyl aster hydrochloride como quasi-drug. Seu mecanismo de ação é similar ao ácido tranexâmico e extrato de camomila. Acredito que a marca tenha feito apenas uma pequena modificação na molécula do ácido tranexâmico, tendo assim uma justificativa para patentear a molécula criada por ela. Patentear algo pode ser importante para efeitos de marketing.
Onde encontrar? Em vários produtos da linha Le Blanc.
Crédito da imagem: Chanel.
Como mostrei aqui, apesar de a Chanel ser francesa, na prática, é como se fosse japonesa, já que muitos produtos da mesma são desenvolvidos no Japão. (Isso explica porque o protetor solar da Chanel é o único ocidental do qual gosto. hehe).
Fim da parte IV. Há mais um ou dois artigos desta série pela frente. No máximo três. No final, vou tentar esclarecer como – pessoalmente – faço minhas escolhas diante a tantas opções.
Twitter do blog: @easttowestsc


Dá até vontade de ter pele pigmentada diante de tantas opções.. brincadeira.. mas eu gosto do extrato de camomila e do ácido tranexâmico como forma de prevenção ao escurecimento da ele pelo sol, mas não sei se funciona de fato, pois a pele está sempre foto-protegida. Mais um texto excelente.
Oi Pedro! Estou acompanhando esta série de posts sobre ativos e produtos para clarear manchas e estou adorando! Como falou o Nando, diante de tantas opções é difícil escolher um produto só! Por isso, gostaria de uma opinião sua … Tenho 24 anos e, por enquanto, não tenho manchas na pele, mas tenho receio de vir a desenvolvê-las, porque faço uso de anticoncepcional há anos. Em sua opinião, qual ativo seria o mais indicado para prevenção? Ah, faço uso de filtro solar todos os dias, inclusive com reaplicação no meio do dia.
Não conheço um “ativo” específico para prevenção. Eu me preocuparia mais em fazer uma boa proteção solar…
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