ATENÇÃO: esta é uma continuação de outros artigos. Não leiam este antes de ler os anteriores:
Recapitulando: a principal estratégia para clarear as manchas é tentar inbir a síntese de melanina. Há vários “caminhos” para tentar inbir a síntese de melanina. Até o momento escrevi sobre os ingredientes/produtos que têm como alvo os melanócitos (células que produzem melanina) e que atuariam inibindo a atividade da tirosinase, enzima essencial para a produção de melanina, pelos seguintes “mecanismos”: ação antioxidante (A) e ação quelante sobre os íons de cobre (B).
O quadro resumo que sempre mostro:
Fonte: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2920561/
Agora mais um:
C) Inibição competitiva —> como todo mundo que fez o Ensino Médio no Brasil aprendeu (ou deveria ter aprendido), enzimas são altamente específicas. E podem funcionar pelo modelo apelidado de “Chave/Fechadura”, que prevê um encaixe perfeito do substrato no sítio de ligação. Não vou ficar revendo conceitos que deveriam ter sido aprendidos no Ensino Médio aqui. Mas para quem não aprendeu ou não se lembra como funcionam as enzimas, o que é perfeitamente normal para quem foi para outras áreas, sugiro dar uma relida no assunto. Há milhares e milhares de sites com explicações simples envolvendo o tema. Como este. Leiam lá, os que não se lembram de nada.
Pois bem. Há quatro principais ingredientes usados para inibir a síntese de melanina por inibição competitiva da enzima tirosinase (os dois primeiros desenvolvidos pela Shiseido): arbutin, 4-Methoxy Potassium Salicylate (4-MSK), Rhododenol e Rucinol.
Para um ingrediente usado em cosméticos, considero as evidências científicas suportando o arbutin bastante boas. Até seria estranho que não tivesse um efeito, já que tanto a molécula do arbutin quanto a da hidroquinona são muito similares. Mas não vou escrever mais aqui sobre o arbutin porque já escrevi este artigo sobre o mesmo.
Sobre o 4-Methoxy Potassium Salicylate (4-MSK), desenvolvido pela Shiseido em 2003, não encontrei nenhum estudo. Mas tenho algumas observações a fazer: por que a Shiseido teria parado de usar o arbutin (desenvolvido por ela mesma, na década de 80/90) para usar o 4-MSK caso o 4-MSK não fosse tão ou mais efetivo que o arbutin? Imagino que a empresa tenha feito estudos internos. Até porque foi uma substância aprovada como qausi-drug no Japão, significando que a Shiseido mostrou alguma evidência ao governo japonês de que esta substância pode proporcionar algum efeito.
Já resenhei um produto da Shiseido contendo 4-MSK, o Haku Melanofocus W, aqui.
A Kanebo, por sua vez, desenvolveu o Rhododenol ou 4-(4-Hydroxyphenyl)-2-butanol ou, mais fácil, 4-HPB. Observem a ilustração, não vejo como não entender como funcionaria:
Crédito da imagem: http://www.kanebo-cosmetics.co.jp/
Esta é uma das formas pelas quais a hidroquinona, extremamente restrita no Japão, também atua (An. Bras. Dermatol.).
Além desta forma, este ingrediente também teria outros mecanismos de ação. Sugiro que vocês leiam quais seriam estes mecanismos diretamente no site da Kanebo (não é má vontade, o problema é que seu fosse dar muitas explicações aqui possivelmente este post seria o maior do mundo. hauahau).
Embora eu não tenha encontrado nenhum estudo sobre o Rhododenol em um periódico peer-reviewed , foi aprovado como uma quasi-drug pelo governo japonês. Significando que alguma eviência de que funciona – por menor que seja – a Kanebo deve ter mostrado.
Onde encontrar: em vários clareadores da Kanebo, principalmente nos da linha Blanchir Superior (comento mais sobre isso no final desta parte da série de artigos sobre clareadores japoneses).
Por fim, há o Rucinol (4-n-Butylresorcinol), obtido pela japonesa Pola em 1998. (Int J Mol Sci. 2010; 11(6): 2566–2575.).
Agora que a patente da empresa japonesa venceu, a alemã Eucerin está usando esta substância em sua nova linha. Cliquem aqui para ler os comentários que fiz sobre esta nova linha da Eucerin e o ingrediente 4-n-Butylresorcinol.
Fim da parte mostrando os ingredientes que funcionam inibindo a atividade da tirosinase. Os seguintes ingredientes têm como mecanismo reduzir os níveis da proteína tirosinase (o que de certo modo também acada inibindo a atividade da tirosinase, óbvio). Para isso, duas formas;
A) Aceleração da degradação da tirosinase —> é claro que degradar a tirosinase, enzima responsável pela formação de melanina, poderia levar a um clareamento das manchas escuras. Um ingrediente que vem sendo reportado como capaz de fazer isso é o ácido linoléico, um ácido graxo insaturado -também chamado de ômega-6. O óleo de cártamo é rico em ácido linoléico e alguns pequenos estudos clínicos mostraram que tanto o óleo de cártamo quanto o ácido linoléico pode ser relativamente efetivo para tratar melasma e outras hiperpigmentações. Não vou citar referências aqui porque já citei referências sobre isso no artigo que escrevi sobre o óleo de cártamo. (Percebam que há números entre parenteses em um trecho que comento sobre o ácido linoléico, basta clicar nestes números para ir aos estudos).
Apesar de o ácido linoléico ter sido aprovado como uma quasi-drug no Japão em 2001 e ter sido obtido por uma empresa japonesa (Int J Mol Sci. 2010; 11(6): 2566–2575.), não encontrei nenhum produto japonês com este ingrediente.
Mas um produto relativamente rico em ácido linoléico que conheço é o Miracle Worker Dark Spot Corrector, da americana Philosophy (agora europeia, já que foi comprada pela Coty).
Crédito da imagem: http://www.philosophy.com/
O produto não conta apenas com ácido linoléico, mas também com diversos ingredientes que podem ter ação antioxidante (como derivados de vitamina C), niacinamida etc.
Vejam como um comercial ocidental sobre cosméticos muitas vezes tem de ser completamente diferente de um comercial japonês. Em um comercial japonês, o marketing geralmente tenta chamar a atenção de potenciais clientes pela prevenção. Já em um comercial ocidental, geralmente é mostrado uma possível rápida solução para problemas já existentes:
Nos EUA custa por volta de US$ 60.00.
B) Inibição da maturação da tirosinase —> as manchas escuras são causadas pela melanina, que é gerada quando a tirosinase nos melanócitos matura. Sabendo disso, os pesquisadores da Kanebo tiveram a ideia de criar algo com o objetivo de prevenir a síntese de melanina na “etapa mais cedo possível”. Então chegaram ao Magnolignan (5,5′-Dipropyl-biphenyl-2,2′-diol), um tipo de polifenol com estrutura similar ao encontrado em algumas plantas. O Magnolignan pode inibir a maturação da tirosinase (Pigment Cell Res. 2003 Oct;16(5):494-500.). Considero essa substância bem interessante porque é a única que conheço que atuaria em um estágio tãi inicial, antes que a tirosinase possa estar plenamente formada.
A aplicação de uma fórmula com 0.5% de Magnolignan durante três semanas mostrou um resultado significativamente superior em relação ao creme placebo na prevenção da hiperpigmentação induzida por raios UV. O estudo também concluiu que é seguro. (Nishinihon Journal of Dermatology).
Outro pequeno estudo clínico concluiu que, após seis meses de uso de uma formulação também contendo 0.5% de Magnolignan, tal ingrediente é efetivo e seguro para clarear vários tipos de hiperpigmentações na face. (Nishinihon Journal of Dermatology).
Porém, encontrei um caso recente de dermatite de contato causada pelo 5,5′-dipropyl-biphenyl-2,2′-diol (Contact Dermatitis. 2012 Jan;66(1):51-2.). A ironia é que isso sugere que a substância pode proporcionar algum efeito. Explico: moléculas que podem causar dermatite de contato, em geral, são moléculas que conseguem penetrar na pele, abaixo de 500 Da. (Exp Dermatol. 2000 Jun;9(3):165-9.). Se não tivesse sido reportado nenhum caso de dermatite de contato, talvez isso sugerisse que a penetração do Magnolignan – e a eficácia, consequentemente – fosse desprezível.
Onde encontrar o Magnolignan? No Blanchir Superior Whitening Conclusion.
Crédito da imagem: http://www.blanchir-sp.net/
Este serum - de textura leve, hidratante e leitosa – pode ser comprado por aproximadamente US$ 100.00 (frasco maior).
Pausa para comentar sobre a linha Blanchir Super de um modo geral: do ponto de vista completamente pessoal, sou um grande fã da linha Blanchir Superior (Kanebo). As texturas são altamente agradáveis e dentro da linha há opções de texturas para preferências variadas. Os produtos são quase sem perfume e me proporcionaram bons resultados. Resenhei dois produtos da linha: um aqui e outro aqui. Recomendo que vocês leiam para mais detalhes sobre os ingredientes que eles usam e outros aspectos.
Geralmente eu não vejo motivos racionais para comprar muitos produtos de uma mesma linha ou até a linha inteira. Neste caso, porém, vejo. Alguns produtos da linha contêm o ingrediente X que pode clarear a pele; outros o Y, outros o C e assim por diante.
Por exemplo, o hidratante que resenhei tem Rhododenol, já o serum contém Magnolignan. Enquanto que o leite hidratante tem niacinamida (será comentada nas próximas partes). A máscara, por sua vez, contém derivado de vitamina C (ascorbyl glucoside).
Não sei se a Kanebo fez isso por motivos que consideraria justos, como possíveis incompatibilidades “técnicas” entre os ingredientes, ou para forçar o consumidor a comprar vários itens da linha. De qualquer forma, a proposta da marca é que a síntese de melanina seja diminuída por vários “caminhos” diferentes; por isso imagino que usar vários produtos da linha, com ingredientes diferentes, talvez proporcione um resultado melhor. Mas isso também não significa que você não poderia obter um bom resultado usando apenas um produto. Significa apenas que talvez você não veja o resultado que você veria usando vários produtos da linha.
A minha intenção era terminar hoje a série de artigos sobre os clareadores japoneses. Mas infelizmente não será possível porque ainda há muito assunto pela frente. Muito mesmo. A parte dos ingredientes que têm como alvo os melanócitos termina aqui. As próximas partes, que continuo a publicar amanhã, são sobre ingredientes que poderiam clarear as manchas em virtude de que teriam uma ação anti-inflamatória, por exemplo. Também comentarei um pouco mais sobre a minha experiência pessoal com estes produtos e sobre estratégias não convencionais que muitas japonesas vêm adotando.
Twitter do blog: @easttowestsc



Pedro,
Vou colocar o link dos teus 3 posts no meu sobre melasma, bem como aquele post do Nando onde ele dá uma geral em vários protetores solares. Beijo!
Eu também vou colocar o link do teu post. hehe Mas será no última parte da série.
AInda tem mais um !! Êeeeee!!
Acho que dois ou três. haha
Acabei de ler a sua resenha do blanchir superior white deep night conditioner achei fantástico. Tbm já usei um creme da kanebo mas da linha mais “comum” freshel whitening cream, foi bem o que vc falou NÃO arde nada, tanto que usava ele até depois de peeling, uma pena que durou só 2 meses :\
Oi Pedro, vc coloca a linha White Lucent da Shiseido como principal ativo o 4-MSK ou a Vit C(derivado) neste mecanismo de ação? Parece que a linha têm os 2 ativos como principais…Então funcionaria na síntese de melanina por inibição competitiva da enzima tirosinase…vc já usou cremes com esses ativos como já descrito em um post sobre clareadores chamado Haku Melonofocus W…o que vc achou? ajudou? Abss
São três os principais ingredientes clareadores usados na linha White Lucent (o serum tem os três): um derivado de vitamina C “especial” e não citado ainda (comentarei sobre nos próximos artigos), o 4MSK e o ácido tranexâmico. O ácido tranexâmico será comentado em um post que publico hoje. O serum, portanto, atuaria principalmente por três caminhos” (há mais, mas estou citando os principais): ação antioxiante, inibição da atividade da tirosinase e ação anti-inflamatória, o que será comentado no post de hoje.
Particularmente gostei muito dos resultados, mas comentarei mais sobre isto no final.
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